Escrevi este texto em maio de 2020, durante a pandemia, e publiquei primeiro no LinkedIn. Ele fica aqui como um recorte do que estava acontecendo naquele momento.
“Em uma crise militar você deve ouvir estrategistas militares, em um debate gramatical, você deve ouvir professores de português, em uma crise de saúde, você deve ouvir especialistas em vírus, microbiologia, médicos, infectologistas. É lógico, não vai se chamar um especialista em arte barroca, para tratar de vírus.”
Esta fala recente do Leandro Karnal me fez abrir essa conversa aqui sobre um ponto que tem me incomodado muito em relação ao posicionamento de universidades, empresas e pessoas perante a crise do coronavírus.
Em um momento em que muitos tratam a ciência e a pesquisa como opinião pessoal, precisamos de todo apoio possível para que as orientações dos especialistas cheguem em toda a população. Acredito que os professores que têm condições (internet, acesso a redes e a pesquisa) podem e devem fazer esse papel de trazer a pesquisa acadêmica e a ciência para mais perto dos alunos com informações de qualidade, além de fomentar iniciativas por parte dos alunos para diminuir a devastadora situação que comunidades carentes estão enfrentando por não ter acesso a informação.
Hoje estou aqui, não para falar só sobre tecnologia, mas para abrir uma conversa com todos vocês, sobre o nosso mundo e o momento atual que vivemos, como isso impacta nossas vidas e como deveríamos nos responsabilizar pelas coisas.
Se você não esteve morando em uma caverna nos últimos 5 meses, você sabe que estamos vivendo um momento nunca antes vivido, ao menos não nessas proporções. Estamos em meio a uma pandemia de um vírus, para o qual não temos uma vacina. Sim, eu sei que é uma forma bem simplista de descrever, mas serve para o momento.
As universidades
Assim como em quase todo o mundo, desde março temos tido aulas remotas na faculdade, o que em parte é o que me faz vir aqui abrir essa conversa. Não especificamente as aulas remotas, mas as atitudes de grande parte dos professores do meu curso perante o momento que vivemos.
As universidades, principalmente as privadas, como instituições, são empresas, e, como toda empresa, têm seus shareholders, funcionários, contas para pagar e lucro pra gerar. Logo, nada que possa vir a reduzir o lucro é, para elas, um bom movimento. Entendo perfeitamente, apesar de não concordar. A universidade em que estudo é a Feevale, e ela tem seguido as orientações do governo, que, contra todos os especialistas e todos os estudos, minimiza o problema.
Os professores
Então chegamos aos professores, que por definição do dicionário são “aquele que ensina”. Mas eles vão muito além disso: são figuras quase que mitológicas, que têm um poder e uma missão muito grande e honrosa, que é divulgar o conhecimento. A função de ensinar é muito anterior à criação das primeiras instituições educadoras. Antes mesmo que a escrita fosse desenvolvida, por meio oral, já tinham a importante função de repassar aquilo que era considerado importante.
São eles, principalmente, que deveriam estar conscientizando as pessoas da situação que vivemos, passando esse conhecimento que vem de muitos outros professores com outros nomes, como pesquisadores e cientistas. E, não indo tão longe, passando a simples mensagem que pode fazer muita diferença para muitas pessoas, vindo de seus professores: precisamos ficar em casa.
Mas infelizmente não é o que tem acontecido, ao menos não com a maioria dos professores do meu curso. Alguns têm evitado falar do assunto e, sempre que o assunto vem à tona, desconversam e não tomam uma posição. Outros insistem em viver em um passado que não existe mais, com frases como “se não estivéssemos tendo aula remota agora, estaríamos fazendo isso na faculdade” ou “vamos ver isso depois, talvez voltemos às aulas logo”, claramente não aceitando que aquele mundo de janeiro e fevereiro de 2020 não existe mais.
O mundo que não volta
Vamos ter que repensar como muitas coisas funcionam. Como vão existir shows depois disso? Devemos continuar tendo que tocar com as mãos portas e botões de elevadores? Os próprios elevadores, um espaço fechado com várias pessoas juntas, escadas sem janelas e ventilação, mercados, transporte público e etc. Muitas coisas vão precisar mudar, muitas coisas não vão poder mais ser como eram antes. Eu sei, é louco pensar nisso, mas depois de tudo que tem acontecido, e de como vimos um vírus surgir em uma cidade e chegar a todos os países do mundo, você já parou para pensar como era maluco ir em um show com milhares de pessoas juntas?
Estamos em uma pandemia, muitas pessoas estão morrendo todos os dias e, no mais otimista dos casos, estamos a cerca de um ano de termos uma possível vacina, sem contar o tempo que levaria para fabricá-la para todo o mundo depois disso. Sinceramente, fico muito triste e decepcionado com meus professores por essas atitudes e pela isenção também. Eles deveriam estar juntos nessa batalha e principalmente cobrando que a universidade pense nos alunos e pense neles, mesmo que isso seja não seguir as diretivas que vêm do governo. E claro que aqui estou trazendo o relato que vivi. Não sei o que acontece nos bastidores, e escrevo justamente porque certas discussões deveriam ser tema principal no palco quando se trata de saúde.
Responsabilidade pelo que colocamos no mundo
O Mike Monteiro, um designer de quem gosto muito, em suas palestras e no seu livro Ruined by Design: How Designers Destroyed the World, and What We Can Do to Fix It, fala bastante sobre como nós, como designers e como pessoas, precisamos tomar responsabilidade por aquilo que colocamos no mundo. Isso mudou a forma como vejo as coisas, e vejo que este mesmo conceito serve perfeitamente para os professores.
A responsabilidade que é ser professor no Brasil, ainda mais da rede pública, é gigante e desafiadora. Muitos dos professores com quem tive aula eu lembro até hoje, sou fã, admiro muito, enquanto outros nem tanto. Como catalisadores de conhecimento, acredito que é sim parte da função se posicionar e orientar os alunos sobre questões em pauta, ainda mais quando se trata de uma pandemia. Todos tivemos que passar por um período de adaptação e não tem sido fácil, mas o professor continua sendo a figura de referência do aluno, e uma simples mensagem de “pessoal, é hora de ficar em casa” faz muita diferença.
Para continuar a conversa
Para finalizar o texto, mas não o diálogo: no último domingo (24/05), teve uma live do Átila Iamarino com o professor Leandro Karnal, e, dentre os muitos pontos da conversa, tem um que vai muito ao encontro do que estou explanando aqui sobre a atitude que tenho visto dos professores na minha faculdade.
“Eu me sinto culpado, porque acho que a universidade, que se caracteriza pela inteligência, ela se tornou ininteligível, ela não conseguiu se comunicar. Então eu vejo como tão importante o trabalho de canais como o seu (falando de Átila Iamarino), que começaram a falar aquilo que os professores universitários tradicionais não fizeram na mesma proporção, e eu acho que é em parte nossa culpa que tanta idiotice, como nazismo ser de esquerda, como não ter existido golpe em 1964, tanta imbecilidade só prosperou, porque a gente continuou lá na universidade, pregando cristianismo para padres, convertidos, e nós tínhamos que ter ido até as aldeias falar para os pagãos, com mais clareza, coisa que não fizemos.”
Gostaria muito de entender como está essa situação nos outros cursos e também nas outras universidades. Também seria muito bom ouvir professores, ex-professores e todos que se sentirem à vontade para contar como estão as coisas por aí.
Um abraço a todos e, se puder, fique em casa.